quarta-feira, 27 de julho de 2011

Os fins, os meios e a passagem

Definitivamente, descobri - ou reafirmei - que tenho dificuldade de lidar com o fim das coisas.

O fim das férias, o fim de uma viagem, o fim de um trabalho, o fim de um sentimento, o fim de um ano letivo. O fim de um ano. E, na verdade, nem acho que o fim em si seja a grande dificuldade, afinal, sou sempre eu quem busca por mudanças que significam o fim de algo. Quem as deseja, quem as traça de longe e as executa - mesmo que com pesar - sou sempre eu.

E tenho essa certeza: é preciso continuar andando. Depois de três cidades, mais de 8 casas, sinto que não são grandes as raízes materiais - nem nunca desejaria que fossem. Mas, como sempre, as pessoas. E a rotina. As pessoas com quem se convive, os hábitos, os sentimentos que vem acompanhados da certeza de se frequentar um lugar ou de sentir o perfume de alguém. Os cheiros, as ansiedades do que representou uma determinada fase da vida: isso me deixa nostálgico no trato com os fins.

E, por mais que continuar andando seja geralmente encarado de maneira positiva e até mesmo estimulante, andar significa também arcar com o peso de se arriscar. De sair de uma zona de conforto - deliberadamente podendo não encontrá-la depois - e ver-se empenhado na construção de outra.

É, realmente isso. A aventura do desconhecido - que só é possível e grande porque conta com a solidez daquilo que se sabe, se vive e se orgulha. Todos precisamos esquentar o peito e, no fim, sempre tendo a achar que o que se constrói é sempre o que mais importa; para além das mudanças. Exatamente porque o que fica é o que permite as mudanças. Ficar e partir, permanecer e mudar, se aventurar e construir.

Bem dialético...

terça-feira, 12 de julho de 2011

Apenas, isso

Pelos corredores e sob o fino carpete que revestia o andar, eram seus passos os mais escutados durante o dia. Querido!, Querida! – exclamava como de costume a todos os outros funcionários da empresa. Suas mãos eram afáveis; quando não apertavam o braço daqueles com quem falava, estavam a alisar as costas ou as mãos das pessoas.

Eram muitos sorrisos, muitas piadas. Intimidade? Até com a quitandeira da esquina, imigrante coreana que apenas balbuciava palavras em um português incompreensível. Sabia de tudo: era a grande confidente das tramas amorosas, a entusiasta eufórica das aventuras sexuais, a conselheira dos impasses problemáticos de todos. De si, dava com a cabeça: Nada de novo!, ou Trabalhando!.

Naquela noite, no entanto, antes que pudesse virar a cabeça, já era possível pressentir que o teto de vidro havia por fim revelado suas fissuras. Em seus olhos, a expressão primeira da verdade, do não camuflar-se, do espaço aberto que, ao invés de demandar tantas informações aos outros, apenas importava-se em demonstrar sua ânsia: lágrimas e mais lágrimas.

Era difícil e era duro. Sabe, lidar com si. Não precisávamos dizer nada; partimos para o abraço. Nem tão quente, nem tão frio. Apenas, isso.

Talvez ela tenha se sentido melhor.