terça-feira, 12 de julho de 2011

Apenas, isso

Pelos corredores e sob o fino carpete que revestia o andar, eram seus passos os mais escutados durante o dia. Querido!, Querida! – exclamava como de costume a todos os outros funcionários da empresa. Suas mãos eram afáveis; quando não apertavam o braço daqueles com quem falava, estavam a alisar as costas ou as mãos das pessoas.

Eram muitos sorrisos, muitas piadas. Intimidade? Até com a quitandeira da esquina, imigrante coreana que apenas balbuciava palavras em um português incompreensível. Sabia de tudo: era a grande confidente das tramas amorosas, a entusiasta eufórica das aventuras sexuais, a conselheira dos impasses problemáticos de todos. De si, dava com a cabeça: Nada de novo!, ou Trabalhando!.

Naquela noite, no entanto, antes que pudesse virar a cabeça, já era possível pressentir que o teto de vidro havia por fim revelado suas fissuras. Em seus olhos, a expressão primeira da verdade, do não camuflar-se, do espaço aberto que, ao invés de demandar tantas informações aos outros, apenas importava-se em demonstrar sua ânsia: lágrimas e mais lágrimas.

Era difícil e era duro. Sabe, lidar com si. Não precisávamos dizer nada; partimos para o abraço. Nem tão quente, nem tão frio. Apenas, isso.

Talvez ela tenha se sentido melhor.

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