sexta-feira, 26 de agosto de 2011

É urgente

É urgente que as pessoas se amem
sem vergonha e sem tristeza
Que se amem com orgulho

É urgente que as pessoas não se escondam
por detrás das outras pessoas
das ideias das outras pessoas
dos muros espessos do medo...

É urgente partilhar o pão e o corpo
com a claridade da terra molhada
nas manhãs de sol
É urgente assumir a verdade *

É urgente viver,
para o bem e para o mal
na entrega e na sinceridade

É urgente tomar decisões
E é urgente ser feliz

*Manuela Amaral

sábado, 20 de agosto de 2011

Educação - parte 1

Apesar de estudar em uma universidade pública e de fazer parte já há alguns anos do movimento estudantil, por alguma casualidade até então nunca tinha de fato me aprofundado em números e estatísticas relativos ao debate sobre educação no nosso país. No entanto, lendo a tese de alguns colegas para o último CONUNE - Congresso da União Nacional dos Estudantes - eis que fiquei bastante assustado com alguns dados que tomei conhecimento.

Comecemos pelo Prouni. Para quem não está tão a par assim, o que seria o Prouni? Criado no governo Lula, depois de identificada a limitação em ser bem sucedido do FIES - que é o programa de financiamento estatal lançado no governo FHC para que estudantes de baixa renda pudessem financiar seus estudos em instituições de ensino superior privadas - o Prouni surge seguindo a mesma linha da Lei Rouanet: isenção fiscal para universidades privadas concederem vagas para estudantes de baixa renda aprovados em seus vestibulares. Essa era a política de FHC, essa foi a política de Lula e essa continua sendo a política de Dilma: entregar para o setor privado a responsabilidade sobre a educação do nosso país. Nada menos neoliberal.

Primeiro dado chocante: segundo o site oficial do MEC, em 2005, o montante que essas empresas da educação não pagaram de impostos ao governo federal foi de 105 milhões de reais. Leia-se: o governo deixou de investir em educação pública, gratuita e de qualidade o valor de 105 milhões de reais. Impressionado com a quantia, resolvi procurar qual é o custo de um aluno na USP e, a partir desse dado, calcular quantas vagas poderiam ser criadas na USP com a quantia reservada para o Prouni. De acordo com o site da Associação dos Docentes da USP (Adusp), o custo de um aluno na USP é de 10 mil reais ao ano. Calculando uma média de 5 anos de graduação por aluno, teríamos um valor de 50 mil reais por estudante.

105.000.000 : 50.000 = 2100 vagas poderiam ter sido criadas na USP

A princípio pode parecer pouco. O equivalente a 35 salas completas no curso de Jornalismo da ECA ou a quase 4 salas com 560 alunos cada no curso de Direito da SanFran. Pouco, mas o que está em jogo é exatamente o cerne da questão que é escamoteado: o que se entende, o que se deseja, o que propõem a ser a educação brasileira. E é aí que entramos no aspecto ideológico e político do debate.

Rapidamente poderia-se justificar o Prouni dizendo que o projeto cria um número maior de vagas do que as 2100 vagas potencialmente criadas na USP. Poderia-se justificar também que, como as instituições privadas já estão por aí aos montes e que, como para quem nunca estudou, essa é uma necessidade imediata, o Prouni pode ser considerado um bom paliativo.

Bem, aí entremos com o segundo dado chocante: em 1994, de acordo com o MEC, os estudantes das instituições privadas de ensino superior, equivaliam a 58, 4% do total de estudantes do país. Com o fim do governo FHC em 2002, esse montante era de 69,2%. Em 2009, no fim do governo Lula, esse número passou para 74,4%. Claramente o que se nota é que a partir do momento em que a política pública estatal brasileira de educação passou a ser financiar a educação dos jovens no setor privado, o que vimos foi a expansão das instituições privadas e o declínio e sucateamento das instituições públicas.

Trata-se de uma escolha. Uma escolha que fortalece grupos dominantes do "setor" de educação - como Unip, Estácio de Sá, etc - e enfraquece o patrimônio público e coletivo. O Estado não só não garante educação de qualidade, pública e gratuita para todos, como incentiva o setor privado a cumprir, à sua maneira e de acordo com seus interesses, a maior parte da educação nacional.

A questão é: educação medida somente em números de produção de vagas? Educação tratada como um paliativo para quê?

Educação em universidade particular, já sabemos qual é. Aquela que forma profissionais. Que se esvazia e se omite do debate e formação críticos, que se vê enjaulada na manutenção de uma sociedade mercadológica supostamente "atemporal", que não oferece nenhum tipo de assistência estudantil como bandeijões, residência ou bolsa-auxílio para que estudos sejam de fato efetuados, que é tecnicista e positivista. Educação mercadoria - o que, em grande parte da universidade pública já não é tão diferente, dadas as fundações, os estágios cada vez mais cedo, a pesquisa servindo aos interesses do mercado, etc.

Continua.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Uma flor rompe no filme

Não consigo achar melhor imagem para Pecado da Carne do que a poesia de Drummond: uma flor que rompe o asfalto. E, diga-se de passagem, que imagem esta, não?

Bem, é em uma comunidade de judeus ultra-ortodoxos de Jerusalém aonde estamos e Ezri, jovem e muito caloroso, sem ter para onde ir, acaba indo parar no açougue de Aarão. Este, casado, fiél dedicado, carrancudo. Infeliz. Desde sua barba pesada e seus gestos contidos a seus olhares desconfiados, tudo nos indica algum grau de insatisfação consigo mesmo.

Como sempre, a vida traz boas novas. Sem muitas palavras, com movimentos singelos e com um tempo que demora a passar, os dois acabam por se aproximar. E não é que a fatídica carne - sobre a qual Aarão e os demais fiéis tanto tergiversavam, sempre a culpabilizando e elevando as glórias humanas para os terrenos celestes - pode render prazeres possíveis e acessíveis para esses dois homens?

É com uma fotografia líndissima, uma direção super precisa e atores muito convincentes que esse filme israelense nos mostra o quanto o ser humano, suas contradições e sua complexidade podem nos surpreender no mais inóspito e improvável dos ambientes. E, acima de tudo, quão grande é o poder e a pressão das construções sociais criadas por ninguém menos do que nós, humanos.



É de entristecer o fato deste grande encontro estar fadado ao fracasso da sociedade em aceitar o que é verdadeiro, mas não igual; o fato de, muitas vezes, ser tão difícil de se assumir a narrativa das nossas próprias vidas, independente do local aonde vivemos e das pessoas que estão ao nosso redor; a dificuldade de se entender como a humanidade pode ser tão cruel - e tão medíocre - ainda hoje.

De qualquer forma, o filme nos dá pistas para pensar sobre a felicidade que está ao nosso alcance - para além da realidade material e a dificuldade imposta pelo mundo em que vivemos. Recomendo fortemente o filme.

Só mais uma coisa: é sempre inquietante ver o papel reservado para as mulheres nessas comunidades religiosas patriarcais. Totalmente reprimidas sexualmente, tidas como objetos sexuais frígidos, meros bibelôs. De indignar. Agora, outra coisa: qual a dificuldade de um pai de família ou uma mãe de família, a uma certa altura da vida, se envolver com alguém do mesmo sexo? Realmente não compreendo essa separação que as pessoas fazem entre pat/maternidade e sexualidade.

O que se vive, se vive e nada pode invalidar o que é/foi bem vivido. Fico pensando daqui a uns 50 anos, se ainda veremos esse debate nos filmes.