segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Uma flor rompe no filme

Não consigo achar melhor imagem para Pecado da Carne do que a poesia de Drummond: uma flor que rompe o asfalto. E, diga-se de passagem, que imagem esta, não?

Bem, é em uma comunidade de judeus ultra-ortodoxos de Jerusalém aonde estamos e Ezri, jovem e muito caloroso, sem ter para onde ir, acaba indo parar no açougue de Aarão. Este, casado, fiél dedicado, carrancudo. Infeliz. Desde sua barba pesada e seus gestos contidos a seus olhares desconfiados, tudo nos indica algum grau de insatisfação consigo mesmo.

Como sempre, a vida traz boas novas. Sem muitas palavras, com movimentos singelos e com um tempo que demora a passar, os dois acabam por se aproximar. E não é que a fatídica carne - sobre a qual Aarão e os demais fiéis tanto tergiversavam, sempre a culpabilizando e elevando as glórias humanas para os terrenos celestes - pode render prazeres possíveis e acessíveis para esses dois homens?

É com uma fotografia líndissima, uma direção super precisa e atores muito convincentes que esse filme israelense nos mostra o quanto o ser humano, suas contradições e sua complexidade podem nos surpreender no mais inóspito e improvável dos ambientes. E, acima de tudo, quão grande é o poder e a pressão das construções sociais criadas por ninguém menos do que nós, humanos.



É de entristecer o fato deste grande encontro estar fadado ao fracasso da sociedade em aceitar o que é verdadeiro, mas não igual; o fato de, muitas vezes, ser tão difícil de se assumir a narrativa das nossas próprias vidas, independente do local aonde vivemos e das pessoas que estão ao nosso redor; a dificuldade de se entender como a humanidade pode ser tão cruel - e tão medíocre - ainda hoje.

De qualquer forma, o filme nos dá pistas para pensar sobre a felicidade que está ao nosso alcance - para além da realidade material e a dificuldade imposta pelo mundo em que vivemos. Recomendo fortemente o filme.

Só mais uma coisa: é sempre inquietante ver o papel reservado para as mulheres nessas comunidades religiosas patriarcais. Totalmente reprimidas sexualmente, tidas como objetos sexuais frígidos, meros bibelôs. De indignar. Agora, outra coisa: qual a dificuldade de um pai de família ou uma mãe de família, a uma certa altura da vida, se envolver com alguém do mesmo sexo? Realmente não compreendo essa separação que as pessoas fazem entre pat/maternidade e sexualidade.

O que se vive, se vive e nada pode invalidar o que é/foi bem vivido. Fico pensando daqui a uns 50 anos, se ainda veremos esse debate nos filmes.

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