quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Por que não assisto novela

Chego em casa. Um pouco lento, um pouco desejoso de só me sentar no sofá. Depois de meses a fio desligada, eis que a TV dá sinal de vida. Aonde? Na novela das nove que acaba de estreiar.

Em menos de dois blocos, sou relembrado do por que não assisto TV - e de como sinto raiva de telenovelas.

Uma "mulata brasileira" toma banho de mangueira semi-nua no quintal de sua humilde casa em uma "favela"; semi-pornô, a negra - uma das únicas - em seu lugar cativo do imaginário branco elitista por excelência: fetiche dos machões casados com as senhoras brancas. Porque elas sim são boas de sexo e sensuais! Mesmo quando empregadas domésticas, não negam a sexualidade da raça, não é mesmo?

Mais um bloco e a madame, siliconada e com roupas decotadas, expõe o corpo-objeto enxuto para seus cinquentinha. Em pouco mais de um minuto, destila todos os preconceitos de classe possíveis de serem pensados: essa "gente", os pobres, não merecem a menor tolerância! Bando de imprestáveis sem classe!

Bem-vestido e bem animado, mordomo segue a madame para lá e para cá; passinhos curtos, bicos, caras e bocas. Voz engraçada. Uma figura; ah, quase se esquece, o rapaz não é um palhaço, é gay! E dizem que se envolve com algum dos figurões hetéros da história. Olha quanta modernidade na Globo?!

Desligo a TV e venho escrever; perdi o sono.

2 comentários:

Carlos Nicola disse...

Passar semanas viajando e dependendo da hospitalidade alheia às vezes resultava justamente nisso; assistir novela. Incrível como em vez de quebrar preconceitos ela só os estimula, seja por reforçar trejeitos de personagens estereotipados, ou colocar o personagem-exceção sempre em esquemas correntes. Nada de novo, nada revolucionário.

Tulio Bucchioni disse...

Pois é.

Sorte que há sempre coisas a nos confortar, mesmo quando nos sentimos fracos e pequenos.

=*