quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A revolução

"Feurbach quis explicar a 'alienação religiosa', ou seja, o fato de que homens reais, sensíveis, representem a perfeição em um outro mundo suprasensível(com uma projeção de seres e de situações imaginárias com 'qualidades essenciais' propriamente humanas - em particular, o laço comunitário entre as pessoas ou o laço de amor que une os seres humanos). Tomando consciência desse engano, os homens seriam capazes de se reapropriar de sua essência alienada em Deus e na religião e assim poderiam viver verdadeiramente a fraternidade nesta terra.

Depois de Feurbach, filósofos críticos(entre os quais, Marx) quiseram estender o mesmo esquema a outros fenômenos de abstração e de 'depossessão' da existência humana, em particular aqueles relacionados à esfera política, isolada da sociedade, como uma comunidade ideal onde os homens seriam livres e iguais. Mas, nos diz Marx nas 'Teses para Feurbach', a verdadeira razão dessa projeção não é uma ilusão da consciência, um efeito da imaginação individual: é a cisão ou divisão que reina na sociedade, são os conflitos práticos que opõem os homens uns aos outros, os quais o céu da religião ou da política ordinária lhes propõe soluções miraculosas.




Eles não poderão sair verdadeiramente dessa situação sem uma transformação de ordem prática, abolindo a dependência de muitos homens em relação a outros. Não é portanto a filosofia que acabará com a alienação(pois a filosofia não foi senão o comentário, ou a tradução, dos ideais de reconciliação da religião e da política ordinária), mas sim a revolução, cujas condições residem na existência material dos indivíduos e em suas relações sociais."

Étienne Balibar, "La philosophie de Marx".


Só um comentário: de acordo com Marx, a teoria se verifica na prática e a única condição para conhecer o mundo é transformando-o, de maneira a balizar a teoria em sua essência prática. Descontextualizando o trecho, o qual gostei muito, fiquei com a impressão de que poderia haver um engano no sentido de se pensar que o que importa é somente a ação prática imediata - leitura bastante equivocada e infelizmente muito recorrende em vários grupos políticos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um sentimento

Éramos célebres líricos
Éramos sãos
Lúcidos céticos
Cínicos não
Músicos práticos
Só de canção
Nada didáticos
Nem na intenção
Tímidos típicos
Sem solução
Davam-nos rótulos
Todos em vão
Éramos únicos
Na geração
Éramos nós dessa vez

Tínhamos dúvidas clássicas
Muita aflição
Críticas lógicas
Ácidas não
Pérolas ótimas
Cartas na mão
Eram recados
Pra toda a nação
Éramos súditos
Da rebelião
Símbolos plácidos
Cândidos não
Ídolos mínimos
Múltipla ação

Sempre tem gente pra chamar de nós
Sejam milhares, centenas ou dois
Ficam no tempo os torneios da voz
Não foi só ontem, é hoje e depois
São momentos lá dentro de nós
São outros ventos que vêm do pulmão
E ganham cores na altura da voz
E os que viverem verão

Fomos serenos num mundo veloz
Nunca entendemos então por que nós
Só mais ou menos

Marcelo Janeci / Luiz Tatit

http://www.youtube.com/watch?v=l9skm8ye4t0

sábado, 10 de dezembro de 2011

Um bilhete para o futuro

Há pouco, estávamos ainda deitados. Seus olhos de lince, fechados, pareciam mirar-me por detrás das pálpebras bem cerradas. Aqueles cinco minutos, sentados na cama, a contemplar de um lado a porcelana vazia de um antigo cinzeiro cremado na Tunísia e seus desenhos desenvoltos e entralaçados e, de outro, a grande janela respingada, eram bastante confortantes.

Pude sair, atravessar a rua ao ajeitar o cachecól felpudo, tapando-me a boca, enquanto pisava nos ladrilhos desencaixados aos solovancos e, finalmente, sentir a espessura da minha baguete ao apertá-la por entre meus dedos.

Mais: pude cheirar o futuro. Corri para seus olhos e amarrei-me em mãos apertadas de um toque sincero. Fechando os olhos, lentamente, respirava aliviado. Aquilo, de peito quente e sonho calmo, no número 42 da rua Montmartre, poderia ser chamado nosso.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Do porque gosto tanto de Vicky Cristina Barcelona

Já há mais de três anos de sua estréia e depois de tê-lo reassistido um bocado de vezes, Vicky Cristina Barcelona, assim como outros grandes filmes recentes pelos quais tenho muito carinho - como Volver, Biutiful ou Má Educação - ainda causa muito impacto sobre mim.

E esse impacto, o qual eu pude felizmente vivenciar concretamente quando tive a oportunidade de conhecer Barcelona e alguns dos locais aonde o filme foi filmado, é algo que venho processando com cuidado e prazer nos últimos tempos e por isso a vontade de compartilhá-lo aqui no blog.

O que mais me agrada em Vicky Cristina é o que eu decidi chamar de densidade despretensiosa. Sua reflexão sobre os dilemas e experiências e limites da ordem da vida privada, a meu ver, consegue ser extremamente ousada, sem correr o risco de se tornar caricata. Sua intensidade não é fetichizada ou inversossímil; sua poesia e sensualidade não são arrogantes.


Acima de tudo: suas certezas e seus encontros, um termo de que gosto muito, seja consigo mesmo, ou com os outros, são assumidamente transitórios - sem no entanto tornarem-se descartáveis. Um grande banho de água fria em muitas das opressões que vivenciamos de quando em quando!

Outro dia, em uma das disciplinas que curso aqui em Paris, o excelente professor que me dá aulas lançou a máxima que eu desconhecia: "a politização da vida privada", uma das bandeiras da revolução feminista e sexual francesa dos anos 70. É exatamente isto que encontro em Vicky Cristina: o reconhecimento de uma busca por condições outras de vivências afetivas e sexuais, muito sinceras, em um sentido de abertura a experiências, mas também de tolerância a limites, isto é, de reflexão intensa e ousada sobre a maneira como nos relacionamos conosco mesmo e com as pessoas ao nosso redor.


"Meu corpo é meu" - Hoje, segue a pergunta: Será mesmo?

Duas cenas em questão me chamam atenção nesse sentido. A primeira se refere ao momento em que Cristina conta a seus amigos tradicionais e, por que não, moralistas e conservadores, sobre seu envolvimento com Maria Helena e o início da relação a três com Juan Antônio.


Optando pela narrativa em flashback, Woody Allen parece deixar claro a naturalidade e a obviedade com que sua história é contada: o grande fato não é a "aventura" de Cristina com um pintor e sua ex-mulher - abordagem a qual poderia ser toscamente a opção de mais de 95% dos diretores de cinema - mas sim a recusa à medíocridade de uma vida pautada em pressupostos alienados e opressores de algo absolutamente não debatido, mesmo pela esquerda, que é a nossa vida privada e sexual. Daí a pertinência da máxima francesa.

A segunda cena é aquela em que, depois de bons meses vivendo com Maria Helena e Juan Antônio, Cristina, para quem é muito claro o que não deseja, mas pouco óbvio aquilo que, de fato, está em busca, resolve contar para seus companheiros sua decisão de terminar a relação.

A maneira com que Cristina reconhece a felicidade e a qualidade do encontro daqueles meses mas, no entanto, explica que já não se sente contemplada por aquela relação, e na mesma medida, a resposta de Juan Antônio, ao simplesmente agradecer pela possibilidade daquelas vivências, me parecem de uma beleza incrível.

E uso o termo beleza porque há muito de libertário, de fato, em tudo isso. Liberdade e intensidade, na teoria e na prática de nossas vidas pessoais, é definitivamente o que me encanta não apenas nessas passagens, mas no filme de modo geral.

Superando os limites de uma polaridade desinteressante entre moralismo e liberdade sexual plena (?) - fica o questionamento, sempre - acredito que a grande sagacidade é de se admitir buscas, limites e fins para, dessa forma, se chegar a algum nível mínimo de autenticidade e de liberdade em nossas explorações e subversões pessoais, sentimentais e sexuais.