sábado, 3 de dezembro de 2011

Do porque gosto tanto de Vicky Cristina Barcelona

Já há mais de três anos de sua estréia e depois de tê-lo reassistido um bocado de vezes, Vicky Cristina Barcelona, assim como outros grandes filmes recentes pelos quais tenho muito carinho - como Volver, Biutiful ou Má Educação - ainda causa muito impacto sobre mim.

E esse impacto, o qual eu pude felizmente vivenciar concretamente quando tive a oportunidade de conhecer Barcelona e alguns dos locais aonde o filme foi filmado, é algo que venho processando com cuidado e prazer nos últimos tempos e por isso a vontade de compartilhá-lo aqui no blog.

O que mais me agrada em Vicky Cristina é o que eu decidi chamar de densidade despretensiosa. Sua reflexão sobre os dilemas e experiências e limites da ordem da vida privada, a meu ver, consegue ser extremamente ousada, sem correr o risco de se tornar caricata. Sua intensidade não é fetichizada ou inversossímil; sua poesia e sensualidade não são arrogantes.


Acima de tudo: suas certezas e seus encontros, um termo de que gosto muito, seja consigo mesmo, ou com os outros, são assumidamente transitórios - sem no entanto tornarem-se descartáveis. Um grande banho de água fria em muitas das opressões que vivenciamos de quando em quando!

Outro dia, em uma das disciplinas que curso aqui em Paris, o excelente professor que me dá aulas lançou a máxima que eu desconhecia: "a politização da vida privada", uma das bandeiras da revolução feminista e sexual francesa dos anos 70. É exatamente isto que encontro em Vicky Cristina: o reconhecimento de uma busca por condições outras de vivências afetivas e sexuais, muito sinceras, em um sentido de abertura a experiências, mas também de tolerância a limites, isto é, de reflexão intensa e ousada sobre a maneira como nos relacionamos conosco mesmo e com as pessoas ao nosso redor.


"Meu corpo é meu" - Hoje, segue a pergunta: Será mesmo?

Duas cenas em questão me chamam atenção nesse sentido. A primeira se refere ao momento em que Cristina conta a seus amigos tradicionais e, por que não, moralistas e conservadores, sobre seu envolvimento com Maria Helena e o início da relação a três com Juan Antônio.


Optando pela narrativa em flashback, Woody Allen parece deixar claro a naturalidade e a obviedade com que sua história é contada: o grande fato não é a "aventura" de Cristina com um pintor e sua ex-mulher - abordagem a qual poderia ser toscamente a opção de mais de 95% dos diretores de cinema - mas sim a recusa à medíocridade de uma vida pautada em pressupostos alienados e opressores de algo absolutamente não debatido, mesmo pela esquerda, que é a nossa vida privada e sexual. Daí a pertinência da máxima francesa.

A segunda cena é aquela em que, depois de bons meses vivendo com Maria Helena e Juan Antônio, Cristina, para quem é muito claro o que não deseja, mas pouco óbvio aquilo que, de fato, está em busca, resolve contar para seus companheiros sua decisão de terminar a relação.

A maneira com que Cristina reconhece a felicidade e a qualidade do encontro daqueles meses mas, no entanto, explica que já não se sente contemplada por aquela relação, e na mesma medida, a resposta de Juan Antônio, ao simplesmente agradecer pela possibilidade daquelas vivências, me parecem de uma beleza incrível.

E uso o termo beleza porque há muito de libertário, de fato, em tudo isso. Liberdade e intensidade, na teoria e na prática de nossas vidas pessoais, é definitivamente o que me encanta não apenas nessas passagens, mas no filme de modo geral.

Superando os limites de uma polaridade desinteressante entre moralismo e liberdade sexual plena (?) - fica o questionamento, sempre - acredito que a grande sagacidade é de se admitir buscas, limites e fins para, dessa forma, se chegar a algum nível mínimo de autenticidade e de liberdade em nossas explorações e subversões pessoais, sentimentais e sexuais.

4 comentários:

Lia Lupilo disse...

vou procurar ver o filme, tutu! fiquei super a fim!

hoje mesmo estava, coincidentemente em uma conversa sobre objetificação do corpo e surubas. que não necessariamente acontece objetificação etc..

assuntos complexos e interessantes! beijo

Tulio Bucchioni disse...

sim...sempre acho que objetificaçao nao acontece quando há intensidade, mesmo que nos encontros pontuais! acho que isso é liberdade sexual com qualidade...

Suellen Barbosa disse...

nossa Tulio muito bom, curti o termo "a politização da vida privada" vem de encontro com algo que vc me disse uma vez: que é preciso ter concordância e coerência na militância e no amor, que nossas relações devem ser reflexos dos nossos ideais... muito lindo isso! me foi muito útil (nesse meu período de desilusão) beijos

Tulio Bucchioni disse...

Acho que é justamente esse o ponto: a militância e a luta por transformações sociais passam necessariamente por transformações subjetivas e das relações sociais, no público e no privado. E é aí que reside uma alienação que ainda é muito tabú: a alienação de nós mesmos, dos problemas da ordem do privado e do subjetivo, sem desligá-los de uma conjuntura social.

Fiquei feliz que vc gostou! =)