sábado, 10 de dezembro de 2011

Um bilhete para o futuro

Há pouco, estávamos ainda deitados. Seus olhos de lince, fechados, pareciam mirar-me por detrás das pálpebras bem cerradas. Aqueles cinco minutos, sentados na cama, a contemplar de um lado a porcelana vazia de um antigo cinzeiro cremado na Tunísia e seus desenhos desenvoltos e entralaçados e, de outro, a grande janela respingada, eram bastante confortantes.

Pude sair, atravessar a rua ao ajeitar o cachecól felpudo, tapando-me a boca, enquanto pisava nos ladrilhos desencaixados aos solovancos e, finalmente, sentir a espessura da minha baguete ao apertá-la por entre meus dedos.

Mais: pude cheirar o futuro. Corri para seus olhos e amarrei-me em mãos apertadas de um toque sincero. Fechando os olhos, lentamente, respirava aliviado. Aquilo, de peito quente e sonho calmo, no número 42 da rua Montmartre, poderia ser chamado nosso.

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