terça-feira, 9 de outubro de 2012

Quero ser fotógrafo.
Sempre quis ser ator.



quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Identidade fragmentada

Uma vez vítima de violência física, essa mulher já sofreu todas as etapas da humilhação social, violência psicológica, moral e patrimonial, é uma mulher com identidade fragmentada, muitas vezes com baixa auto-estima e devemos frisar aqui que essa vulnerabilidade independe de classe social.
Relatório do seminário de gênero da Fitert

Identidade fragmentada.
Identidade fragmentada.
Identidade fragmentada.

Pense em suas mães.
Pense em você.

Opressões: vocês não passarão e vão acabar!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Assalto

Voltava para casa, ontem à noite, depois de um prazeroso encontro com a Karina, amiga com quem eu morei junto ano passado e que acaba de chegar no Brasil e fui surpreso. Já estava próximo da minha casa quando, de repente, uma moto em alta velocidade dobra a esquina e vem em direção a mim. Assalto, pensei. Mas não, não pode ser. Dois assaltos em menos de dois meses é demais. Não deu outra. Fui assaltado, nada aconteceu comigo, mas meu celular e minha carteira, com cartão, sem dinheiro - a parte boa de andar sem grana - meu VR e minha carteirinha da USP foram roubados.

Diante da cena e situação concreta, me peguei pensando: o que fazer?! Mudar de casa? Não andar mais sozinho? Não sair mais à noite? Andar de táxi? Nada disso...Mudar de casa, talvez, no ano que vem, porque já não quero mais morar no Butantã. E sim, um dos critérios vai ser escolher um bairro e vizinhança mais agitados, para me sentir mais seguro. A velha máxima do espaço público desocupado que é violento, é verdadeira. Voltar de táxi quando estiver sozinho e for tarde da noite? Talvez...

No entanto, o que me pega é como a questão da segurança está ligada à falta de perspectivas. Qual a perspectiva pra juventude pobre e negra hoje?! Pastar em um trabalho mal pago. No Brasil, dados recentes mostram que a maioria dos jovens entre 20 e 29 anos ocupam mais de 60% das vagas das empresas de telemarketing, por exemplo. Esse tipo de emprego paga mal, é sucateado e explora a mão de obra desses jovens. Quem gostaria de com vinte e poucos anos ficar enfiado nesse tipo de emprego?! Morando longe, sem acesso à cultura, o transporte custando o absurdo que custa, o embrutecimento da vida que se leva em São Paulo, enfim, uma série de complicações...

Que não justificam o roubo ou a violência - seja ela simbólica, como a que sofri, ou concreta. No entanto, a totalidade do sistema sempre se mostra visível e repugnante em situações como essa.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Voyeur

"You are either going to walk through life and experience it fully or you're going to be a voyeur. And I'm not a voyeur" - NK

domingo, 9 de setembro de 2012

William e sua silhueta

William e sua silhueta - Eric Rhein
Fazendo uma pesquisa para o meu trabalho de conclusão de curso da faculdade, o famoso TCC, por sorte encontrei a página do museu Leslie-Lohman de Arte Gay e Lésbica. O museu fica em Nova Iorque e, apesar de sua página dizer que este foi o primeiro museu LGBT do mundo, eu tenho as minhas dúvidas. Cidades tão progressistas como Berlim ou Amsterdam também tem seus museus LGBTs com um acervo consolidado e de longa data. Bem, mas isso não é o mais importante.

O legal foi ter descoberto fotógrafas interessantes como Sara Swaty e Catherine Opie, cuja temática de alguns bons trabalhos e exposições explora a questão de gênero, as noções socialmente construídas de masculinidade e feminilidade, assim como a transsexualidade e a transformação do corpo humano. Interessante que hoje mesmo no facebook um daqueles mêmes que rodam a semana dizia:
"Ai, mas travesti não é mulher". E, embaixo, no pé da foto de uma travesti negra da periferia, a resposta: "Travesti é o que quiser, beijos, lide com isso".
De uma forma singela, estava colocado o que essas fotógrafas tentam trabalhar com a imagem: o fato da nossa anatomia não ser um destino, mas uma história. Materia flexível.

Em meio ao gigantesco arquivo do Leslie-Lohman, disponível na internet, achei a foto acima. William and his silhouette, de Eric Rhein. Fiquei delicadamente tocado. Sei que a imagem é simples e sem grandes ápices, mas é justamente essa simplicidade familiar o que me chama atenção. O fato de homens terem sim uma silhueta. O fato do corpo masculino poder sim ser apreciado por sua beleza.

O cotidiano e sua beleza e leveza, tal qual se é hegemonicamente admirado tem sim um gênero, que é o femino - de maneiras não raro objetificantes e alienadas e opressoras. Aqui, nesta imagem o que quero dizer é que vejo o cotidiano real masculino/feminino, humano, colocado de uma forma simples, que a meu ver rompe com uma certa heteronormatividade - afinal essa posição, ou melhor, essa exposição dessa posição de William não é por excelência considerada masculina ou incentivada a ser registrada. O seu destino é  lixo da história hegemonicamente heteronormativa - usando do conceito do Walter Benjamin.

É isso o que me irrompe e me agrada.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Memória involuntária

Listras, pescoço e ombros quase de fora. Leva pra lá, leva pra cá. Descendo e subindo as escadas. Em meio a tudo, à maquiagem e aos passos em frente das câmeras, o cheiro de ardósia. Aquele velho piso verde brilhante das memórias. Calor, uma noite quente e o cheiro da infância. Não fossem vinte e dois anos mais tarde, um dia cheio de trabalho e a festa que lhe esperava, poderia de repente até fechar os olhos e sentir seus anseios.

domingo, 24 de junho de 2012

Calma, mansa e quente - nos meus ápices

02:07 da manhã. Final de semestre. Um trabalho final e um trabalho - de verdade - para se pensar e aceitar. Cansaço acumulado, noites mal-dormidas(há de se ser social, também), supermercado para fazer.

E a sensação mais linda, leve e de completude ao passar uma tarde e noite e começo de madrugada de domingo com outras 15, 20 pessoas, pensando na melhor forma de agir e tocar uma organização. Satisfação de estar vivo, de fazer parte disso, de ousar estar aqui e reunir forças e energias aqui, nesse projeto. E isso não é heróico; não somos mártires, melhores ou piores do que ninguém. Nem mais dignos; nada disso. Nem temos o caminho correto. Estamos tentando e vivendo em coletivo, com divergências e sínteses. E aprofundando todo um debate e uma prática. E não estaremos sozinhos nessa caminhada.

Mas estamos aí: dedicando tempo e vidas - subjetivas e coletivas e na tentativa de serem cada vez mais emancipadas subjetiva e coletivamente - a algo que nos liberta...E nos mostra que é possível e é simples de se viver na esteira de outros espaços, de outras relações sociais, de outra prática política, outro mundo...

Orgulho e felicidade...Daquelas que é calma, mansa e quente. Que te deixam leve e te fazem esquecer que amanhã é segunda. Felicidade sem crise, espontaneísta, sem cobraças, dúvidas ou freios. Só isso que peço e que quero sentir nos meus ápices - de atos, falas, músicas, danças ou amor.

E essa música maravilhosa para terminar a noite.

Quero - Elis Regina (http://www.youtube.com/watch?v=tMCbgRHspcs)
Quero ver o sol atrás do muro
Quero um refúgio que seja seguro
Uma nuvem branca sem pó, nem
fumaça
Quero um mundo feito sem porta ou
vidraça
Quero uma estrada que leve à verdade
Quero a floresta em lugar da cidade
Uma estrela pura de ar respirável
Quero um lago limpo de água potável

Quero voar de mãos dadas com você
Ganhar o espaço em bolhas de sabão
Escorregar pelas cachoeiras
Pintar o mundo de arco-íris

Quero rodar nas asas do girassol
Fazer cristais com gotas de orvalho
Cobrir de flores campos de aço
Beijar de leve a face da lua

sexta-feira, 18 de maio de 2012

"Menino diferente"

"Em um dado momento da pesquisa, uma das professoras chamou nossa atenção para um “menino  
diferente”. Entre quatro meninas, o menino corria no pátio sem perceber que era observado. Mas assim que percebeu a filmadora parou à sua frente e iniciou uma série de movimentos, enquanto o restante do grupo foi alertado para a existência da câmera. O menino, nas pontas dos pés, simulou passos de balet clássico. Delicado nos movimentos e expressões faciais, não hesitou em demonstrar força na disputa com uma menina pelo melhor espaço na frente da máquina. Foi identificado como o protagonista de uma história relatada pela professora sobre um menino que se vestia com saias na brinquedoteca, para brincar de casinha. O relato trazia um tom de estranhamento e algo de acusatório. Seria a questão da sexualidade pré-estabelecida problemática também para os agentes escolares ? O detalhe da sua vestimenta chamou bastante a atenção, a sunga de banho na cor rosa. Haveria no ar medo da homossexualidade, vigilância sobre os meninos diferentes?

Meninos em aula de balé

Em outro ponto do espaço, mais afastado do centro do pátio, entre latões vazios e uma cerca de madeira, encontramos uma menina em meio a um grupo de meninos. Vestida de short demonstrava habilidades semelhantes às dos meninos com quem brincava. Agrupados em um bloco pareciam brincar de polícia e ladrão. O cárcere era constituído por um espaço delimitado por cerca e se alternavam na fiscalização do prisioneiro. A menina participou de todas as etapas da brincadeira, sem aparente diferenciação. Durante a fuga do prisioneiro, que aconteceu no momento em que a menina fiscalizava, todos empenharam-se em recuperá-lo, sem resultado positivo, mas também não responsabilizando a menina pelo episódio. A brincadeira terminou aí com a dispersão do grupo. A harmonia deste grupo despertou nosso interesse, essa menina em meio aos meninos era a mesma que iniciara o ano fantasiada de Batman.

As duas crianças estavam supostamente “fora de seus lugares”, o menino de rosa e a menina de short, no entanto apenas o menino foi apontado pela professora. Haveria maior flexibilidade para as mulheres nas fronteiras do gênero?" *

 Lauren, a protagonista que se apresentava como Michael no filme Tomboy

*A Educação infantil entre o rosa e o azul: uma aquarela de possibilidades - Flávia Teixeira, Universidade Federal de Uberlândia
http://www.ichs.ufop.br/conifes/anais/EDU/edu0204.htm

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Achado

Revendo as postagens do blog, eis que me deparo com as tais "ferramentas do google" que demonstram quais foram os textos mais lidos, os mais comentados, quais dias o blog teve mais visitas, quais meses ficou na pindaíba. E eis que, em meio a esse caos não familiar, me deparo com algo de que gosto. Verdade seja dita: há muito de mim que está aí e que ficou para trás, ainda bem. No entanto, prefiro não cuspir no prato em que comi. Há de se encontrar ecos ou reverberações desse texto em algum aspecto de mim...Bons tempos, aqueles em que escrevia com entusiasmo!

Sobre relações assimétricas - 07/09/2009


Ouvi dizer de alguém muito querida que todos os relacionamentos são assimétricos. Se não o são agora, serão em alguma fase. Porque sempre alguém tem de gostar mais do que o outro.

Amizades podem ser assim: há sempre o caso daqueles que ligam e dos que recebem as ligações. Os que são admirados e os que admiram. Os que dominam e os que se sujeitam. Há também o caso daqueles que contam tudo e não ouvem nada. O dos que ouvem e não se abrem. Ou dos que não contam e nem ouvem. Funcionam como grandes bolhas fechadas em que o mundo já não pode mais atravessar.

Há ainda o caso dos encontros fortuítos, cheios de entrega e intensidade, onde grandes caixas de diálogo parecem se abrir espontaneamente e sobrevoar nossas cabeças; mas que, na verdade, acabam por acontecer com menos frequência do que desejamos. E nem sempre a culpa é nossa. Muitas vezes é do tempo. Da falta dele que nos leva a bloquear tentativas aleatórias que irrompam no meio de uma rotina já demarcada. Porque às vezes, mesmo que involuntariamente, nos fechamos ao inusitado. O que é uma pena, diga-se de passagem.

No amor a coisa parece ser ainda mais engraçada - ou sádica, leia-se como quiser. Quem nunca conheceu alguém que praticamente não vivesse sem o outro? Ou alguém cuja identidade já não se reconhecia mais, de tão borrada? Quem não viu pessoas reluzirem e apagarem em uma rapidez absurda?

Por outro lado, quantos são os que de fato sabem que não sabem o que querem? E nesse meio tempo, o do não saber, levam a energia e o gosto de si próprios e, pior, de seus companheiros. Há também aqueles que não se valorizam e ficam a mercê de, bem, pessoas que têm a sorte de tê-los e o azar de serem quem são. Há também os que se doam, sem medo. Pegar ou largar, sempre do mesmo jeito.

No fim, eu me pergunto, porque as pessoas - e nelas eu me incluo - reclamam tanto de tudo! Se, mais no fim ainda, tudo não passa de uma mesma música, que perpassa a vida de todos, em alguma fase da vida, e cujas grandes possibilidades só nos basta enxergar?

Porque se é pra viver, que seja de verdade. E de preferência, com simetria.

Sujeito coletivo

No entanto, viver os atributos performáticos e subjetivos definidos como femininos não gera imediatamente uma consciência política do caráter binário e aprisionante das identidades e estruturas de gênero. O feminismo refere-se à disputa política pela explosão das estruturas naturalizantes e binárias do gênero. Há muitas plataformas feministas, muitas filiações teóricas. Sugiro pensar o feminismo como uma plataforma política de transformações radicais.

A experiência corporal é uma das dimensões para produção da rebeldia. No entanto, se a condição para transformação das relações políticas, sociais, econômicas, sexuais entre os gêneros fosse a presença de um corpo sexuado feminino, a opressão ao feminino teria sido uma ficção histórica. A consciência política e a agência transformadora não são determinadas por estruturas biológicas, por experiência localizável exclusivamente no corpo. Talvez se possa argumentar que o corpo da mulher experencia a opressão e esta vivência comum produz uma identidade política.  Então, por que as mulheres já não se rebelaram há séculos? Há um nó indissolúvel na tese que busca explicar a consciência política pela experiência corpórea. 


A consciência política nasce por outros caminhos que não coincidem necessariamente com a experiência próxima. Assumir como minha a dor do outro, sentir-se profundamente tocado pelas violências que são cometidas diariamente contra as lésbicas, por exemplo, e tornar-se lésbico-política significa articular novas formas de organização política e de alianças que vão além dos limites ditados ou inscritos no corpo. Essa possibilidade sinaliza com algo mais: a afetiva possibilidade de construirmos novas estratégias, definições e significados para os chamados sujeitos coletivos.


Berenice Bento

 

terça-feira, 10 de abril de 2012

Pessoalmente, emoções poderosas

Pessoalmente, acho que o movimento feminista deve almejar mais do que a eliminação da opressão às mulheres. Deve sonhar em eliminar as sexualidades obrigatórias e os papéis sexuais. O sonho que acho mais fascinante é o de uma sociedade andrógina e sem gênero (embora não sem sexo), na qual a anatomia sexual de uma pessoa seja irrelevante para o que ela é, para o que ela faz e para a definição de com quem ela faz amor

Gayle Rubin, "O tráfico de mulheres: notas sobre a economia política do sexo"


Olhou-a de relance e baixou o talher. Revirou a comida, as lágrimas contidas, os soluços abafados. Garfo para cima, garfo para baixo, enlouquecido e insensato. Movimentos mecânicos e caóticos, sem pensar. Não poderia se articular; não falava, nem balbuciava. Irrompeu-se.

Emoções poderosas. Se fosse ator, daí surgiriam os dramas e assim atingiria o animalesco, o transe. Esse estado natural e irremediado.

sábado, 31 de março de 2012

Eleições do DCE

Eleições DCE Livre da USP (Resultado final)

Não vou me adaptar: 6964 votos (53%)
Reação: 2664 votos (20%)
Universidade em movimento: 2579 votos (19%)
27 de outubro: 503 votos (3%)
Quem vem com tudo não cansa: 250 votos (2%)

Brancos: 43 votos
Nulos: 136 votos

Total de votos apurados: 13139 votos

(Fonte: Jornal do Campus/USP)

Acabaram as eleições para o DCE da USP. Foi uma eleição tranquila em termos de problemas práticos, mas desgastante em termos de polarização política.

A nossa chapa, Não vou me Adaptar, composta pela unidade de três coletivos mais pessoas independentes - os coletivos, a saber, Juntos!, PSTU/Anel e Rompendo Amarras, sendo este último aquele de que faço parte - foi eleita para a maior entidade da organização estudantil na USP com um quórum histórico de 13 mil votos.

Essa gestão excepcionalmente mais curta do que todas as outras terá muitos desafios pela sua frente. O primeiro deles é de fato o de dar conta de sua proposta: uma unidade de amplos setores da esquerda uspiana. Setores estes que foram por anos gestões e oposições em diferentes momentos. Seremos bem sucedidos?

Só o tempo poderá dizer. No entanto, a certeza é apenas uma: o avanço incessante do projeto Rodas, mais recentemente expresso nos processos à diretoria da Adusp e na reforma da pós-graduação que prevê a privatização dos mestrados e doutorados, assim como o encurtamento dos tempos de pesquisa; a dificuldade de se recuperar a mobilização na USP neste ano, mesmo diante da organização histórica do semestre passado e de suas parcas vitórias concretas; em último plano, a organização de uma chapa de direita para o DCE financiada por partidos de direita e apoiada pela grande mídia, uma chapa com membros declaradamente homofóbicos inclusive; todos esses fatores tornam a necessidade de unidade da esquerda combativa em marcos consensuais mínimos senão uma imposição a todos que se indignam, ao menos uma tentativa de consequência por parte do movimento estudantil e, por que não, da esquerda brasileira representada nestes coletivos que atuam na USP.

Nesse sentido, é bom reconhecer tanto a fragilidade como a ousadia da nossa proposta. Assim sendo, temos um longo caminho de esforço pela frente, rumo à retomada das mobilizações na nossa universidade. E esse é o segundo, não em importância, nem em ordem, desafio que teremos: retomar os processos de mobilização na USP iniciados no semestre passado e agregar novos estudantes à nossa causa, aí inclusos os milhares de calour@s que não viveram o semestre passado na USP.

Mesmo soando pouco uma proposta de unidade dentro da esquerda combativa, acho que um bom paralelo é aquele que pode ser traçado com a situação nacional do nosso país: após oito anos de governo Lula e agora com o governo Dilma, quais foram de fato as conquistas da esquerda em nosso país? Não tivemos reforma agrária efetuada, pelo contrário, a cooptação de grande parte do MST pelas estruturas do governo federal, licenciamos desmatadores de nossas florestas via lei do código florestal, entregamos o tal projeto sustentável "Brasil-país verde" com o etanol no momento da descoberta do fabulo$o pré-sal, temos declaradamente uma política de repressão às greves de trabalhadores(o último caso, o dos bombeiros), não conseguimos debater a ditadura do nosso país sem que as Forças Armadas aliadas do governo federal não abram a boca para impedir quaisquer avanços, o investimento em educação pública continua nos míseros menos de 5% e a privatização do ensino segue de vento em popa via Prouni; kits anti-homofobia e comerciais anti-HIV destinados ao público LGBT foram vetados pela presidenta, a mesma que escreveu a "Carta para o povo de Deus" quando de sua eleição se prontificando a não descriminalizar o aborto...

E, mesmo diante desse panorama de derrotas para um projeto autêntico e verdadeiramente combativo em nosso país, ainda é difícil estabelecer uma unidade eficaz entre os setores da esquerda brasileira. Ou seja, o que se passa na USP é sim muito importante na microesfera do movimento estudantil uspiano e, mesmo que uma das hipóteses seja a da falência total dessa nossa proposta, deveríamos estar já satisfeitos é de acreditarmos na possibilidade de construção dessa chapa de unidade. Inclusive com setores da ultra-esquerda, que nada compartilham das nosso programa político e métodos, tendo declarado apoio e voto crítico à nossa chapa.

OBS: com relação ao apoio da Negação da Negação à Não vou me Adaptar, houve muita ironia - entre muitas outras situações lamentáveis - por parte de membros da chapa Universidade em Movimento. O que queria dizer é: o sectarismo não vai partir da nossa parte. Se há disposição para algum diálogo, para alguma mudança em relação ao fratricídio que são as assembléias gerais da USP, por exemplo, não somos nós quem vamos ser sectários com relação a esses companheiros, mesmo questionando as suas práticas políticas...Aliás, assim como não fomos quando propusemos unidade para os setores que compõem a chapa Universidade em Movimento.



domingo, 18 de março de 2012

Mágoa

Naquele dia, queria apenas ler algo bacana. Sentou-se, para depois deitar. Sobretudo, revirou-se, mais uma vez às voltas com velhos amigos sentimentos. Tomou chá e também café, antes de bolar seu costumaz cigarro. Tentava pensar no futuro, na juventude que ainda abunda, nos planos para o semestre, nas novas e instigantes perspectivas.

Relaxar e esquecer.

Obrigou-se.

O fracasso já não lhe era mais sina e nem podia mais ser pesado. E as memórias, estas que se danassem. Para que lhe foram suficientes? Talvez, por um motivo: para isentar-lhe da culpa.

Era preciso sair dali.

Fora uma tarde, aquela. As cervejas, que sobravam aos quartos, quentes dentro das latas, eram os fantasmas que lhe perseguiam em um fim de domingo. E quantas mais ainda não apareceriam até que tudo estivesse superado? Até que...

E no entanto - e sempre no entanto - surgiam as dúvidas e as angústias. E a coisa toda de bêbado.

Ah, a redenção. Ouvir a música ou estar em silêncio. Em silêncio, um dia.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Bem querer

É coisa linda...

Bem querer - http://www.youtube.com/watch?v=LGIhPzC9fDI
Chico e Maria Betânia

Quando o meu bem-querer me vir
Estou certa que há de vir atrás
Há de me seguir por todos
Todos, todos, todos o umbrais
E quando o seu bem-querer mentir
Que não vai haver adeus jamais
Há de responder com juras
Juras, juras, juras imorais
E quando o meu bem-querer sentir
Que o amor é coisa tão fugaz
Há de me abraçar com a garra
A garra, a garra, a garra dos mortais
E quando o seu bem-querer pedir
Pra você ficar um pouco mais
Há que me afagar com a calma
A calma, a calma, a calma dos casais
E quando o meu bem-querer ouvir
O meu coração bater demais
Há de me rasgar com a fúria
A fúria, a fúria, a fúria dos animais
E quando o seu bem-querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

E se eu fosse eu?

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar.

Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

(Texto extraído do livro A Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, editora Rocco, pg. 156).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Diane Arbus - I like strange






I am still collecting things - the ones I recognize and the ones I can't quite believe. I think when you look anything squarely in the eye it is different from how you thought it was.
Diane Arbus


O trabalho incrível da fotógrafa norte-americana Diane Arbus é tema de uma grande exposição na galeria Jeu de Paume, em Paris. Diane ficou famosa por fotografar travestis, deficientes mentais, campos nudistas, anões, prostitutas, figuras consideradas exóticas para o convencional.

De dona de casa que acompanhava o marido em suas sessões fotográficas de moda para as maiores revistas americanas, Diane passou a ser considerada uma das mais inovadoras, ousadas e autênticas artistas dos século XX.

A presença do elemento marginalizado, o contato com o incômodo, a relação de estranhamento e a atração que aí reside é o que mais impressiona na exposição e em seu trabalho em geral. "O que é o estranho?" - somos levados a nos perguntar. Ou antes: existe mesmo o normal?

Diane capta como ninguém alguns ruídos do dia a dia. Cenas que não conseguimos materializar, curiosidades, trejeitos.

Vale muito a pena se aprofundar em sua obra. É deixar-se identificar e perder-se. Há um filme de 2006, com a atriz Nicole Kidman, que se propõe a traçar fragmentos da vida da fotógrafa. Em uma entrevista da época, Nicole afirmou: "I like strange. I've always have".

Nunca tinha parado para pensar exatamente qual seria a minha posição acerca do estranho. Mas ao fim e de imediato, me identifiquei com essa frase. Eu gosto do estranho. Sempre gostei.

Realmente, a curiosidade e o estranho me impressionam, me atraem e me perturbam. Mas o que importa é: me questionam, acima de tudo.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Sobre virar gente grande

Gente grande nem sempre é adulta. Sabe, essa gente, que sente e toma decisões; esse tomar decisões que é coisa de gente que vive com muitas gentes e vê-se obrigada a ser gente no meio de tanta gente! É uma baita confusão...

"Haja hoje para tanto ontem", diz a pixação da Paulista com a Consolação. Nas bandas de cá, te mandam "Regarder le ciel" - olhar para o céu, em bom português.

Eu o fiz hoje e vi estrelas; pela primeira vez em um bom tempo.

Elas brilhavam e havia lá as três Marias, que existem no hemisfério norte, ao contrário do que muita gente diz à toa por aí.

Elas existem, assim como um montão de coisas que não poderíamos supor existir por aqui.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O "verdadeiro" sexo

A idéia de que possa existir um "verdadeiro" sexo, como dizia ironicamente Foucault, é precisamente produzida pelas práticas reguladoras que formam identidades coerentes através do domínio e da manipulação de normas adequadas de gênero[...]

É exatamente porque certas "identidades de gênero" não se adequam a essas normas de inteligibilidade cultural que elas não podem senão aparecer como anomalias ou impossibilidades lógicas. A persistência e a proliferação dessas identidades são uma ocasião crítica de expor os limites e os termos reguladores desse domínio de inteligibilidade e portanto de tornar possível, nos marcos mesmo dessa inteligibilidade, práticas concorrentes e subversivas que possam problematizar as questões de gênero e sexualidade.

"Trouble dans le genre", Judith Butler