sexta-feira, 18 de maio de 2012

"Menino diferente"

"Em um dado momento da pesquisa, uma das professoras chamou nossa atenção para um “menino  
diferente”. Entre quatro meninas, o menino corria no pátio sem perceber que era observado. Mas assim que percebeu a filmadora parou à sua frente e iniciou uma série de movimentos, enquanto o restante do grupo foi alertado para a existência da câmera. O menino, nas pontas dos pés, simulou passos de balet clássico. Delicado nos movimentos e expressões faciais, não hesitou em demonstrar força na disputa com uma menina pelo melhor espaço na frente da máquina. Foi identificado como o protagonista de uma história relatada pela professora sobre um menino que se vestia com saias na brinquedoteca, para brincar de casinha. O relato trazia um tom de estranhamento e algo de acusatório. Seria a questão da sexualidade pré-estabelecida problemática também para os agentes escolares ? O detalhe da sua vestimenta chamou bastante a atenção, a sunga de banho na cor rosa. Haveria no ar medo da homossexualidade, vigilância sobre os meninos diferentes?

Meninos em aula de balé

Em outro ponto do espaço, mais afastado do centro do pátio, entre latões vazios e uma cerca de madeira, encontramos uma menina em meio a um grupo de meninos. Vestida de short demonstrava habilidades semelhantes às dos meninos com quem brincava. Agrupados em um bloco pareciam brincar de polícia e ladrão. O cárcere era constituído por um espaço delimitado por cerca e se alternavam na fiscalização do prisioneiro. A menina participou de todas as etapas da brincadeira, sem aparente diferenciação. Durante a fuga do prisioneiro, que aconteceu no momento em que a menina fiscalizava, todos empenharam-se em recuperá-lo, sem resultado positivo, mas também não responsabilizando a menina pelo episódio. A brincadeira terminou aí com a dispersão do grupo. A harmonia deste grupo despertou nosso interesse, essa menina em meio aos meninos era a mesma que iniciara o ano fantasiada de Batman.

As duas crianças estavam supostamente “fora de seus lugares”, o menino de rosa e a menina de short, no entanto apenas o menino foi apontado pela professora. Haveria maior flexibilidade para as mulheres nas fronteiras do gênero?" *

 Lauren, a protagonista que se apresentava como Michael no filme Tomboy

*A Educação infantil entre o rosa e o azul: uma aquarela de possibilidades - Flávia Teixeira, Universidade Federal de Uberlândia
http://www.ichs.ufop.br/conifes/anais/EDU/edu0204.htm

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Achado

Revendo as postagens do blog, eis que me deparo com as tais "ferramentas do google" que demonstram quais foram os textos mais lidos, os mais comentados, quais dias o blog teve mais visitas, quais meses ficou na pindaíba. E eis que, em meio a esse caos não familiar, me deparo com algo de que gosto. Verdade seja dita: há muito de mim que está aí e que ficou para trás, ainda bem. No entanto, prefiro não cuspir no prato em que comi. Há de se encontrar ecos ou reverberações desse texto em algum aspecto de mim...Bons tempos, aqueles em que escrevia com entusiasmo!

Sobre relações assimétricas - 07/09/2009


Ouvi dizer de alguém muito querida que todos os relacionamentos são assimétricos. Se não o são agora, serão em alguma fase. Porque sempre alguém tem de gostar mais do que o outro.

Amizades podem ser assim: há sempre o caso daqueles que ligam e dos que recebem as ligações. Os que são admirados e os que admiram. Os que dominam e os que se sujeitam. Há também o caso daqueles que contam tudo e não ouvem nada. O dos que ouvem e não se abrem. Ou dos que não contam e nem ouvem. Funcionam como grandes bolhas fechadas em que o mundo já não pode mais atravessar.

Há ainda o caso dos encontros fortuítos, cheios de entrega e intensidade, onde grandes caixas de diálogo parecem se abrir espontaneamente e sobrevoar nossas cabeças; mas que, na verdade, acabam por acontecer com menos frequência do que desejamos. E nem sempre a culpa é nossa. Muitas vezes é do tempo. Da falta dele que nos leva a bloquear tentativas aleatórias que irrompam no meio de uma rotina já demarcada. Porque às vezes, mesmo que involuntariamente, nos fechamos ao inusitado. O que é uma pena, diga-se de passagem.

No amor a coisa parece ser ainda mais engraçada - ou sádica, leia-se como quiser. Quem nunca conheceu alguém que praticamente não vivesse sem o outro? Ou alguém cuja identidade já não se reconhecia mais, de tão borrada? Quem não viu pessoas reluzirem e apagarem em uma rapidez absurda?

Por outro lado, quantos são os que de fato sabem que não sabem o que querem? E nesse meio tempo, o do não saber, levam a energia e o gosto de si próprios e, pior, de seus companheiros. Há também aqueles que não se valorizam e ficam a mercê de, bem, pessoas que têm a sorte de tê-los e o azar de serem quem são. Há também os que se doam, sem medo. Pegar ou largar, sempre do mesmo jeito.

No fim, eu me pergunto, porque as pessoas - e nelas eu me incluo - reclamam tanto de tudo! Se, mais no fim ainda, tudo não passa de uma mesma música, que perpassa a vida de todos, em alguma fase da vida, e cujas grandes possibilidades só nos basta enxergar?

Porque se é pra viver, que seja de verdade. E de preferência, com simetria.

Sujeito coletivo

No entanto, viver os atributos performáticos e subjetivos definidos como femininos não gera imediatamente uma consciência política do caráter binário e aprisionante das identidades e estruturas de gênero. O feminismo refere-se à disputa política pela explosão das estruturas naturalizantes e binárias do gênero. Há muitas plataformas feministas, muitas filiações teóricas. Sugiro pensar o feminismo como uma plataforma política de transformações radicais.

A experiência corporal é uma das dimensões para produção da rebeldia. No entanto, se a condição para transformação das relações políticas, sociais, econômicas, sexuais entre os gêneros fosse a presença de um corpo sexuado feminino, a opressão ao feminino teria sido uma ficção histórica. A consciência política e a agência transformadora não são determinadas por estruturas biológicas, por experiência localizável exclusivamente no corpo. Talvez se possa argumentar que o corpo da mulher experencia a opressão e esta vivência comum produz uma identidade política.  Então, por que as mulheres já não se rebelaram há séculos? Há um nó indissolúvel na tese que busca explicar a consciência política pela experiência corpórea. 


A consciência política nasce por outros caminhos que não coincidem necessariamente com a experiência próxima. Assumir como minha a dor do outro, sentir-se profundamente tocado pelas violências que são cometidas diariamente contra as lésbicas, por exemplo, e tornar-se lésbico-política significa articular novas formas de organização política e de alianças que vão além dos limites ditados ou inscritos no corpo. Essa possibilidade sinaliza com algo mais: a afetiva possibilidade de construirmos novas estratégias, definições e significados para os chamados sujeitos coletivos.


Berenice Bento