quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sujeito coletivo

No entanto, viver os atributos performáticos e subjetivos definidos como femininos não gera imediatamente uma consciência política do caráter binário e aprisionante das identidades e estruturas de gênero. O feminismo refere-se à disputa política pela explosão das estruturas naturalizantes e binárias do gênero. Há muitas plataformas feministas, muitas filiações teóricas. Sugiro pensar o feminismo como uma plataforma política de transformações radicais.

A experiência corporal é uma das dimensões para produção da rebeldia. No entanto, se a condição para transformação das relações políticas, sociais, econômicas, sexuais entre os gêneros fosse a presença de um corpo sexuado feminino, a opressão ao feminino teria sido uma ficção histórica. A consciência política e a agência transformadora não são determinadas por estruturas biológicas, por experiência localizável exclusivamente no corpo. Talvez se possa argumentar que o corpo da mulher experencia a opressão e esta vivência comum produz uma identidade política.  Então, por que as mulheres já não se rebelaram há séculos? Há um nó indissolúvel na tese que busca explicar a consciência política pela experiência corpórea. 


A consciência política nasce por outros caminhos que não coincidem necessariamente com a experiência próxima. Assumir como minha a dor do outro, sentir-se profundamente tocado pelas violências que são cometidas diariamente contra as lésbicas, por exemplo, e tornar-se lésbico-política significa articular novas formas de organização política e de alianças que vão além dos limites ditados ou inscritos no corpo. Essa possibilidade sinaliza com algo mais: a afetiva possibilidade de construirmos novas estratégias, definições e significados para os chamados sujeitos coletivos.


Berenice Bento

 

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